Documentário conta a história de filme esquecido do Quarteto Fantástico

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Foi divulgado no último dia 13 o trailer do documentário Doomed! The Untold Story Of Roger Cormans Fantastic Four, que promete revelar os bastidores da tentativa fracassada de levar o Universo Marvel pela primeira vez ao cinema (a esta informação cabe um adendo logo abaixo). O filme em questão, Fantastic Four, foi finalizado em 1994 e jamais lançado oficialmente nos cinemas. Reza a lenda de que um dos cabeças da recém inaugurada Marvel Films, o executivo Avi Arad, teria comprado todos os rolos do longa-metragem por milhões de dólares para, em seguida, destruí-los.

Os diretores Marty Langford e Mark Sikes entrevistaram os principais envolvidos nos bastidores das gravações: desde o famoso produtor especialista em baixo orçamento Roger Corman, o elenco principal inteiro e os diretores da Marvel. Ao todo, 366 nomes constam nos créditos do filme, que custou apenas US$ 1 milhão para ser feito. A recusa em levar o projeto ao público teria sido pela baixa qualidade (mais tarde o filme foi vazado e já pode ser encontrado pela internet).

A história deste aborto ilustra os 18 anos de tentativas da Marvel, representada diretamente por Stan Lee, de transpor seu universo ficcional dos quadrinhos para os telões. Em 1980, Lee, cansado da confusão que era a produção dos gibis, mudou-se para a Califórnia. Lá ele fundou a Marvel Productions, empresa que seria responsável por cuidar de mais de 20 propostas para levar os personagens Marvel para a TV em desenhos animados e séries. O interesse de produtoras também de cinema em obter as licenças para os personagens era cada vez maior, portanto, nas palavras de Lee, “se alguém vai destruir esses personagens, é melhor que sejamos nós mesmos, e não outra pessoa.”

A narrativa da Marvel em busca de um lugar na indústria cinematográfica na Califórnia é tão importante, no contexto da história empresa, quanto a produção dos quadrinhos na sede editorial em Nova York. No livro Marvel Comics – A história secreta, de Sean Howe (Leya, 2013), percebe-se ao mesmo tempo a ansiedade e a cautela com que os executivos tinham em ver os produtos da Marvel para as telas: no cálculo para ganhar dinheiro, o grande público do cinema sempre foi um investimento mais seguro do que o instável mercado dos gibis. Por isso a estreia teria que ser, ao menos, bem sucedida comercialmente.

Foram necessários 18 anos para que o sonho se realizasse, com o lançamento e posterior sucesso de bilheteria de Blade em 1998. Antes disso, muitas ideias sequer eram consideradas porque a tecnologia não permitia adaptar satisfatoriamente as histórias em efeitos especiais. Nessa conta também não entram dois filmes: Captain America, de 1944 (na época não existia Universo Marvel. Sequer a editora tinha esse nome, chamava-se Timely Comics) e Howard, o pato, em 1986 (fracasso de público e crítica que foi prontamente desconsiderado). [ATUALIZAÇÃO: Cabe um segundo adendo lembrado pelo jornalista Renê Müller: o filme The Punisher de 1989, estrelado por Dolph Lundgren. Não considerei porque nos Estados Unidos ele foi lançado diretamente em vídeo, sendo exibido em cinemas somente em alguns países] 

No período, as licenças de muitos personagens passaram de mão e mão e foram motivo de disputas judiciais, o que atrasou e impossibilitou certas empreitadas como o seriado do Demolidor planejado pela Fox. Outro caso teve início em 1990, quando o diretor James Cameron (que recém havia acabado de lançar Exterminador do Futuro 2) afirmou ter planos para rodar Homem-Aranha. Coincidentemente, a Marvel abriu seu capital na semana seguinte, e o anúncio ajudou a mais do que dobrar o preço das ações. Porém, mesmo com o fato de Cameron ter entregado algumas páginas do argumento do filme, Homem-Aranha só começou a virar realidade quando os direitos passaram da MGM para a mão da Sony em um acordo judicial. O longa só foi lançado em 2002, dirigido por Sam Raimi.

Hoje em dia a história é outra: a Marvel possuiu seu estúdio de cinema próprio, o que a tornou independente de terceiros. Filmes com personagens cujas licenças permanecem na casa mostram-se mais fiéis aos quadrinhos produzidos na Casa das Ideias. Por outro lado, o Universo Marvel que começou a ser formado no cinema, de olho no grande público, cada vez mais influencia na criação dos gibis. Um pouco decepcionante para fãs que sempre esperaram ousadia e vanguarda nas histórias em quadrinhos da Marvel.